Muito
embora não cheguem a causar polêmica é freqüente ouvirem-se
argumentações de um tratamento preferencial a outros públicos
das empresas em detrimento do seu próprio público interno.
Há, por outro lado, aqueles que consideram ser o público
interno o primeiro a receber as atenções dos programas de Relações
Públicas posto que, segundo seus defensores, é no interior da própria
empresa que se inicia um bom entendimento, a partir do qual os
outros ficarão muito mais fáceis e os programas externos terão
como reforço a boa vontade e cooperação internas.
Independentemente de tendências, preferimos evidenciar a importância
que exerce sobre a própria vida da empresa o relacionamento
promovido entre si e seus empregados. Consideramos, antes de mais
nada, que cada empregado, como de resto todo homem, pela faculdade
natural que tem de manifestar-se a receber informações,
representa um potencial receptor e difusor de opiniões
relativamente aos grupos de pessoas a que esteja ligado, dentro e
fora da empresa. Entendemos, portanto, que iniciativas e a manutenção
de bom relacionamento corporativo entre empresas e empregados não
devem constituir metas de trabalho exclusivas de Relações Públicas,
mas, inicialmente, de Relações Industriais, cuja concepção de
ação está longe de apenas administrar os direitos e deveres
entre empresas e empregados, embora muitos, por razões algumas até
justificadas, nem isso o façam. A compreensão da função social
da empresa e suas perspectivas de crescimento ou mutações devem
levar as Relações Industriais à antecipação de propostas e de
programas que conciliem objetivos da empresa e dos empregados,
proporcionando a existência de um clima de cooperação e
incentivo. Esta prática representa o atendimento à necessidade
de desenvolvimento da comunidade empresarial, o que se refletirá
no respeito mútuo entre patrões e empregados. Esta integração
respeitosa, aliás, é condição fundamental em quaisquer outras
categorias de relacionamento e convivência sadios do homem com o
seu mundo e consigo mesmo, sinal de inequívoca sabedoria. Nesse
ambiente, cujo objetivo deve constituir a intenção e os esforços
de todos, a tarefa de Relações Públicas será bem-sucedida, por
intermédio da implantação de instrumentos para o público
interno que por sua vez não é formado apenas por seus
empregados. Este público revela-se ainda mais importante se
considerarmos a família de cada funcionário como segmento do público
interno. Mas para que serve termos proposto mais uma categoria
"Segmento do Público Interno"? Que importância tem ele
no relacionamento Empresa X Empregado X Empresa?
O IBGE calcula para cada trabalhador brasileiro a média de quatro
pessoas em cada família. Grosso modo, temos então que se uma
empresa tem 5 mil empregados, ela terá um segmento adicional de
15 mil pessoas, segmento que tem interesse direto no
desenvolvimento daquela empresa. Ora, isto é bastante natural, e
sabem muito bem os profissionais da área de Relações
Industriais, dos dispositivos de assistência médica e previdenciária
constantes da legislação trabalhista no amparo ao trabalhador e
à sua família, além, obviamente, do próprio salário. E
sabemos que a subsistência de cada família depende, na maioria
de vezes, fundamentalmente daquele emprego. Esta análise, ainda
que superficial, quadruplica nossas preocupações. Quando vemos
estampados nos jornais que 400 horistas de determinada empresa
foram demitidos, imediatamente inferimos que 1.600 pessoas
somaram-se às cerca de quatro milhões (segundo cálculos do
DIEESE) que perderam aquele vínculo de sustento, vital para a
sobrevivência. Concluindo, o fato da subsistência de cada família
depender direta ou indiretamente daquele trabalho faz com que toda
ela fique especialmente interessada nos fatos e acontecimentos
ocorridos no âmbito empresarial, mantendo, portanto, uma natural
expectativa com o que se passa na organização.
OPINIÕES
E BOATOS
Os
teóricos de Relações Públicas sustentam não haver público
sem opinião. E como sabemos que não pode haver opinião sem
informação, significa que um agrupamento de pessoas não indica
necessariamente que seja um público. Para que transformemos um
grupo em um público precisamos inicialmente informá-lo, para que
ele possa discutir seus pontos de vista sobre o assunto informado
e tenha condições de manifestá-los. A isto chamamos opinião do
público, que outra coisa não é senão a própria opinião pública.
Por outro lado, todos conhecem as ondas de boatos causadas por
obra não se sabe de quem, que de vez em quando assolam a nossa
empresa. Mais ou menos como as epidemias de gripe, ninguém sabe
quem trouxe, como veio, e nem quando vai acabar. Mas sabemos que
se facilitarmos, ela pega todo mundo, deixando um rastro lamentável.
Com o boato acontece também a mesma coisa. O escritor Érico Veríssimo
no romance de ficção "Incidente em Antares",
interpretou o boato, e foi muito feliz: "Um boato é uma espécie
de enjeitadinho que aparece à soleira de uma porta, num canto de
muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não
se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores
ignorados. Um popular acha-o engraçadinho ou monstruoso, toma-o
nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro desconhecido que
encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de
outro ou outros e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio
em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos
minutos cresce, fica adulto – tão substancial e dramático é o
leite da fantasia popular –, começa a caminhar pelas próprias
pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a
pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que
se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da
cidade, causando temores e, às vezes, até pânico entre a população,
apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou."
Ora,
tanto a gripe pega um corpo debilitado quanto o boato a uma
empresa sem defesas de comunicação. Quando encontramos uma
empresa, entidade, instituição ou órgão público, sem veículos
internos de comunicação podemos ter a certeza do surgimento de
boatos na certa. E o que é pior, a ideologia do boato é sempre
negativa. É sempre o ridículo, o grotesco, o maldoso, que ganham
maior velocidade em termos de boato. É freqüente coisa deste
tipo: "Você já sabe da última? O diretor X vai ser
transferido de seção. Agora ele vai para não sei que área!".
"Área tal? Que nada! Ele tá com um pé na rua!”... etc!
Este diálogo pode parecer inocente. E até pode ser. Mas é possível
que ele, surgido do nada, possa realmente provocar uma situação
tal que venha resultar na dispensa do tal diretor X. Quem de nós
não observou este fenômeno. E até participamos dele. Isto não
quer dizer que não aconteçam boatos em empresa que possuam veículos
de comunicação interna. Os boatos existem porque são naturais
nos agrupamentos sociais. Os veículos de comunicação interna não
eliminam os boatos. O que podem fazer, no máximo, é reduzir seus
efeitos negativos. E isto, se bem orientados, fazem mesmo.
HOUSE
ORGAN [JORNAL INTERNO]
Uma
importante ferramenta (veículo) de Relações Públicas de
qualquer empresa é o jornal interno. Através dele são
veiculadas as notícias de interesse institucional da organização
e são abordados os fatos e pessoas de interesses da comunidade
empresarial. É muito simples compreender como é significativa a
função de um jornal interno; ele leva, simultaneamente, a todos
os funcionários e suas famílias, o que realmente está
acontecendo na organização, democratizando a notícia e
impedindo, com isso, o surgimento de boatos negativos. Cada
funcionário ou familiar que lê o jornal transforma-se num pólo
de informações sobre a empresa podendo transmitir a vizinhos,
parentes e amigos informações sobre ela. A implantação de um
jornal interno na organização deve considerar uma pauta
editorial de interesse do universo daquela empresa. Usará sempre
que possível uma linguagem ao leitor médio, que possa ser
entendida tanto pelos técnicos como pelo pessoal de nível
cultural mais modesto. O sucesso de um jornal interno é
diretamente proporcional à utilidade das informações veiculadas
para os funcionários. O jornal interno que não leva informações
de seu interesse está condenado ao fracasso. Uma das formas mais
eficientes de se medir a penetrabilidade de um jornal ou revista
internos é olhar as latas de lixo da empresa e ao redor do prédio
no dia da distribuição. O jornal ou revista interno deve ter seu
sistema de alimentação alicerçado nas chamadas fontes de
informação, ou seja, em pessoas espalhadas por todos os setores
da organização que atendam algumas exigências:
-
tenham
um conhecimento técnico que possa fornecer matérias
assinadas cujo teor seja ligado à natureza da instituição;
-
sejam
líderes naturais ou formais e que detenham informações de
interesse da comunidade;
-
tenham
vinculação direta com o desenvolvimento dos funcionários.
Por exemplo: Relações Industriais, Organização e Métodos
etc.
O jornal ou revista deve ter um
conselho editorial formado por pessoas que tenham pelo menos as
características acima, que, com a coordenação de Relações Públicas,
vai definir o perfil editorial para a publicação bem como
discutir cada edição.
JORNAL
MURAL
O
jornal mural é um veículo de comunicação social que encontra
suas origens na pré-história do homem. Todos sabem que o homem
começou a registrar sua história nas paredes das cavernas, há
coisa de 40 mil anos. A importância destas comunicações em épocas
tão remotas é de tal significado que, através delas, podemos
identificar a própria personalidade de cada tribo e sua peculiar
forma de vida. O jornal mural é um veículo essencialmente
comunitário, no qual seus participantes podem ler e escrever mais
livremente suas notícias e opiniões. Ao contrário de outros veículos
de comunicação social, o jornal mural é aquele que exige uma
participação mais efetiva de cada um. Exemplo de grande importância
para a vida de suas comunidades é o jornal mural chinês, o
Dazibao (a pronúncia é Táchin-Bao). Neste lado do mundo, em
algumas empresas, também encontramos iniciativas de
desenvolvimento de jornais murais. Entretanto, freqüentemente são
confundidos com quadros de avisos e vice-versa. Fisicamente o
jornal mural se parece muito com um quadro de avisos. Também se
apresenta em um painel retangular, normalmente forrado de feltro
verde, pregado na parede. Igualmente precisa ser colocado em local
estratégico para que todos possam ler. Necessita de boa iluminação
como o quadro de avisos, mas tem algumas diferenças fundamentais:
o quadro de avisos contém, ou deve conter, apenas informações
de ordem administrativa, como horários, normas, determinações.
Já o jornal mural, como o próprio nome indica, precisa trazer
notícias, ou seja, tudo quanto é novo, verdadeiro e útil aos
funcionários. Isto obviamente vai implicar um esforço constante
de renovação das matérias ali contidas; coisa que não acontece
com o quadro de avisos. O jornal mural pode recorrer a jornais e
revistas, os mais variados, numa tentativa de recortar artigos de
maior interesse da comunidade. A isto, na gíria profissional,
convencionou-se chamar de "agência Gillette-Press". Um
jornal mural, sempre que possível, deve ser bem ilustrado, mesmo
que em detrimento dos textos. Mais ou menos como os jornais quando
expostos nas bancas de revistas para atrair o comprador. Um dos
problemas com que se defronta o editor ou coordenador do jornal
mural e também do jornal ou revista internos é a colaboração.
É freqüente recebermos colaborações impublicáveis, seja pela
qualidade do texto ou pelo temas abordados. Muitas com fofocas e
brincadeiras, às vezes de péssimo gosto. E ficamos
"toureando" o colaborador, na esperança de que ele
desista da idéia. Quando ele não entende a nossas resistências,
dizemos claramente as razões e resolvemos o problema.
MANUAL
DE INTEGRAÇÃO
Um
outro veículo, que o profissional de Relações Públicas pode
auxiliar a editar, pertence à área de Relações Industriais,
chama-se "manual de integração". O manual de integração
é um veículo único, ou seja, não tem periodicidade, embora
deva manter-se atualizado. Editado sob forma de livreto, traz as
principais informações sobre a empresa, como seu histórico,
natureza, objetivos gerais, filiais, organogramas e o famoso
"Quem é Quem" na empresa. Este último diz rapidamente
o currículo e a função de seus diretores, gerentes,
superintendentes etc., e outras informações que possam situar o
funcionário na realidade daquela instituição. O manual de
integração, como o próprio nome está a sugerir, é um veículo
destinado a auxiliar a integração de novos funcionários. Pode
ser editado na forma impressa e/ou audiovisual. E, naturalmente,
é complementado com explicações pessoais do seu chefe sobre
aquele setor e a importância da atividade do recém-chegado.
EVENTOS
DE INTEGRAÇÃO SOCIAL
Eis
aqui algumas atividades internas que, apesar de não constituírem
iniciativas típicas da área de Relações Públicas, devem
contar com o seu integral apoio, seja na participação dos
eventos propriamente ditos, seja no oferecimento incondicional dos
veículos de comunicação sob sua responsabilidade. São os
eventos sociais, cívicos, esportivos e culturais que cada empresa
realiza com o seu público interno. As justificativas da existência
desses acontecimentos no seio das empresas são as mais diversas;
entretanto, acreditamos que todas elas caibam na compreensão de
que cada comunidade empresarial é formada por um contingente de
valores individuais que transcendem à própria capacidade específica,
objeto do contrato de trabalho. Em outras palavras, quando um
empregado é admitido traz consigo um potencial de aptidões e
habilidades em várias outras áreas do conhecimento e
relacionamento humanos que virá somar-se às existentes na
empresa. Ao surgirem oportunidades, elas se manifestam. Estas
oportunidades, naturalmente, devem atrair o maior número de
participantes segundo as predisposições e preferências da
comunidade. Geralmente são criadas por associações ou grêmios
de funcionários e/ou unidades de Relações Industriais e/ou Relações
Públicas e, ainda, podem ser geradas espontaneamente por grupos
ou lideranças informais. Citemos alguns exemplos:
·
Eventos
Sociais – festividade de Natal, juninas, programações
comemorativas aos dias da secretaria, da telefonista e outros:
almoços, jantares e churrascos festivos, etc.
·
Eventos
Esportivos – torneios e campeonatos internos e interempresariais
de futebol de salão e de campo, basquete, vôlei, jogos olímpicos,
jogos de salão (xadrez, dominó etc.) e inúmeros outros.
·
Eventos
Cívicos – iniciativas cívico-culturais alusivas ao aniversário
da empresa, 7 de setembro, 15 de novembro, Dia da Bandeira,
abertura da primavera, fundação dos Estados e municípios onde a
empresa atua etc. Algumas dessas iniciativas estariam mais bem
contidas sob o tema "Relações com a Comunidade" e,
embora não sejam muito comuns, vêm sendo desenvolvidas com certo
êxito, em especial nos desfiles de 7 de setembro, nas comemorações
do Dia do Município, ocasiões em que algumas empresas têm
mostrado alegorias ilustrativas de suas atividades.
·
Eventos
Culturais – alguns dos mais importantes projetos de integração
de funcionários ocorrem sob o tema cultural. Concursos literários
(contos, poesias, monografias); de artes plásticas (pintura,
desenho, escultura, tapeçaria); de artesanato, fotografia, coral,
grupo experimentais de teatro e de música, programações
cinematográficas internas, passeios, excursões e tantos outros.
Têm sido cada vez mais incentivadas nas empresas as
possibilidades de participação das famílias dos funcionários.
Além da parte social, o tema cultural tem oferecido excelentes
oportunidades de trabalho.
Esta,
enfim é nossa visão das atuais possibilidades de colaboração
de Relações Públicas nos esforços de relacionamento com o público
interno. Naturalmente, muita prática precisa ser revista, muita
idéia nova há de ser experimentada e cuidadosamente pesquisada,
procurando orientar-se basicamente pela dinâmica da opinião pública.
Isto sugere que o que é bom para uma empresa não quer dizer que
obrigatoriamente seja bom para outra. Nem mesmo que só por que
uma vez tenha dado certo determinado tipo de trabalho seja
continuamente repetido. Significa que precisamos montar sentinela
e não perder de vista as mutações da opinião pública, com
pena de ficarmos pregando no deserto.
Fonte: Jornal "O Público”
/ Ricardo Eduarte Pereira