O significado
do “branding” está em profunda transformação. Será que ele se
perdeu pelo marketing ou o marketing é que se perdeu pelo caminho
da evolução?
As táticas persuasivas de 20 anos atrás não estão mais
funcionando. Da guerra entre as marcas, estamos assistindo à
guerra contra as marcas, a exemplo das crescentes mobilizações
sociais, dos boicotes aos produtos americanos, dos movimentos "no-brand"
e dos "culture-jammers", fortemente acelerados pela era Bush.
Da economia de escala massificada do século 20 à economia
de nicho desmassificada do século 21 e no ritmo desenfreado das
mudanças, tudo passa a ser transitório: até as mais sólidas
relações de consumo. Marcas de produtos cedem lugar a marcas
institucionais, na sua essência, razões sociais, desvendando quem
está por trás da mensagem, na busca de uma identificação de
valores significativos, que não somente os econômicos.
Os efeitos perversos do consumismo (= o consumo em sua
exaustão) que afetam a sustentabilidade e a justiça social do
planeta passam a fazer parte do debate das nações. Consumo cresce
e qualidade de vida piora, diz recente estudo do Instituto
Worldwatch. “Altos níveis de obesidade e dívidas pessoais, menos
tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo
excessivo está diminuindo a qualidade de vida de muitas pessoas”,
alerta a pesquisa. Crianças passam a ficar viciadas em compras,
diz outro estudo realizado na Inglaterra.
O ser social e o ser político começam a se incorporar ao
ser econômico, em busca de um novo poder que o faça exercitar sua
plena cidadania.
Um novo consumidor ou um novo ser humano? Essa é a
pergunta que deve nortear os planos de marketing, concebendo um
nível mais alto de comprometimento das empresas nas suas relações
comerciais.
Três novos e determinantes valores entram na agenda das
decisões de compra. Informação, Ética e Sustentabilidade.
A informação é explosiva e o ciberespaço tem transformado
nossa capacidade de recebê-la, armazená-la, processá-la e
disseminá-la. Tecnologias se somam aos cérebros e criam seres
humanos integrados num só sistema nervoso, aquilo que Peter Russel
chama de cérebro global. Tecnologias wap, portais de multiacesso,
TV interativa e computadores com comando de voz... vegetais
inteligentes, que educam os consumidores com seus códigos de
barra, os carros falantes e vigilantes, que indicam as rotas e
sinalizam o sono do motorista.
Estamos assistindo à convergência da escrita, audiovisual,
telecomunicações e informática. Desaparecem as fronteiras entre o
viver, aprender, trabalhar, investir e consumir. Ambientes
informacionais mais integrados passam a hospedar nosso universo
cognitivo.
A alquimia informativa passa a ser o mais precioso de todos os
recursos necessários para criar riqueza e conhecimento. A
proliferação atordoante das extensões de linha e do excesso de
opções passa a trazer tédio, muito tédio. Durante a década de 90,
15 mil novos produtos foram colocados nas prateleiras dos
supermercados americanos a cada ano. Atualmente a média de estoque
é de 40 mil diferentes itens. Muito mais escolhas oferecendo as
mesmas coisas farão com que qualidades abstratas prevaleçam sobre
os aspectos sensoriais e racionais. A conveniência passa a ser o
fator decisório, a experiência do acesso valerá mais que o
artefato dos logos e das embalagens sedutoras. A insuportável
invasão das mensagens publicitárias nos espaços públicos e
privados está fazendo nascer o movimento anti-corporativista, de
fato, o novo movimento social desse início de século.
A ética é reveladora e abrem-se as cortinas da verdade nas
quedas e ascensões de mitos corporativos, marcas
centenárias colocadas à prova da opinião pública em flashes e bits
de informação. Cada vez mais vigilantes, seres humanos em
evolução não mais se contentam em ser reconhecidos como apenas
consumidores. O que era antes palco da visibilidade passa a ser
palco da credibilidade. A verdade está em jogo sob as novas luzes
corporativas do novo século. Com o advento da Internet tudo mudou
e o processo será irreversível. A confiança passará a valer mais
do que o saldo da conta bancária e se constitui em nova moeda.
Redes virtuais passam a delinear novas fronteiras de aprendizagem
e influência, a opinião se fortalece pela tecnologia, o controle
que as grandes campanhas publicitárias exercem sobre a imagem
pouco a pouco irá se esvair e dará lugar ao incontrolável poder da
reputação, que em vez de ser fabricada, é fruto da confiança
irrestrita. No futuro bem próximo, indicadores intangíveis como
coerência e transparência serão predominantes nos processos
criativos do “branding”.
A
sustentabilidade é sonora e repercute na orquestra por vezes
desafinada das mudanças, criando novas culturas de consumo que
julgam impiedosamente a frugalidade e se mobilizam pela
necessidade de pensarem no futuro. Assistimos à desmaterialização
da economia e à celebração dos valores intangíveis nas relações de
consumo. Forças econômicas incontroláveis têm influenciado
fortemente hábitos de compra. Novas unidades monetárias
revestem-se de subjetividade, contemplando a ética e a confiança
como ativos antes nunca concebidos nos planos estratégicos.
Crescem as classes consumidoras (pessoas com poder de
compra com mais de R$20 mil reais por ano), mas também crescem as
disparidades: os 20% da população dos países ricos respondem por
86% do consumo. A afluência do desperdício decorre de um processo
em cadeia com impactos adversos ao meio ambiente e à preservação
dos valores humanos essenciais. Sob a perspectiva da sobrevivência
e da passagem para as futuras gerações, nascem novos hábitos e
atitudes de consumo visando à sustentabilidade do
planeta. Traçam-se novas fronteiras nas relações com produtos e
serviços, influenciando a criação de novos valores econômicos e
ampliando o espectro de reflexos sociais.
O futuro está mais próximo do que imaginamos. Resta saber
se o “branding” da sedução, do excesso, da obsolescência, dos
símbolos e dos artefatos, irá sobreviver a essa nova civilização
em sua busca do significado, da ética, dos princípios e dos
valores mais legítimos que irão sustentar a vida.
Rosa
Alegria, futurista, pesquisadora de tendências é
vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro-NEF da PUC (SP),
diretora-presidente da Perspektiva-Consultoria de Tendências,
Cenários e Estratégias e instrutora do Uniethos.