O governador
José Serra (PSDB) acredita mesmo que vai conseguir convencer o
presidente da República, Luiz Ignácio Lula da Silva (PT), a
transferir para o Estado de São Paulo o comando do maior porto da
América Latina. O Porto de Santos foi o principal tema do encontro
entre ambos na semana passada e eles voltam a falar sobre a Codesp
dentro de 15 dias. O governador Serra afirmou ainda que tratará
com o presidente a questão do repasse dos armazéns de 1 a 8 do
cais para a Prefeitura de Santos e também anunciou novidades na
área de Saúde e falou sobre Segurança Pública, Transportes e
Economia. Confira os principais trechos da entrevista:
AT - Qual sua avaliação do encontro que manteve com o presidente
Lula?
José Serra - O porto (de Santos) foi o motivo principal da minha
visita. Porque o porto está andando para trás. Não dá para
administrar o porto (de Santos) lá de Brasília. Não dá para fazer
loteamento político do Porto. Temos de ter uma administração
profissionalizada, transformando em um fator de desenvolvimento
para São Paulo e para a Baixada. O presidente me disse que era
simpático à idéia. Eu propus que criássemos um grupo misto entre
São Paulo e o Governo Federal para discutir as condições técnicas
da transição. Entreguei até uma proposta do que deveria ser o
Porto de Santos em uma administração profissionalizada. A idéia é
que o Governo Federal tenha participação da mesma maneira que os
municípios, mas que o Estado capitaneie.
AT - Mas o que faz o senhor pensar que a União estaria disposta a
ceder o comando do Porto de Santos para o Estado?
Serra - Porque o porto (de Santos) é muito importante para as
economias paulista e brasileira. É o principal porto do Brasil. E
está hoje atravancado por problemas de natureza financeira e de
gestão. Isso acaba representando um obstáculo para o
desenvolvimento e para a abertura econômica do próprio Brasil. Eu
acredito que essa tese terminará vingando, terminará se
materializando porque realmente é indispensável para o País. E o
presidente Lula acolheu bem a minha proposta. Naturalmente, não
podia lá tomar uma decisão, mas eu acredito que formando um grupo
entre Governo do Estado e União nós seremos capazes de chegar a
uma boa solução. Desde logo, eu vou reforçar bastante agora a
participação do Estado no conselho de administração da empresa
(referia-se ao Conselho de Administração Portuária, o CAP). Vamos
fortalecer muito nossa presença lá. Mas é necessária essa
estadualização, com participação da União e dos municípios.
Ninguém pretende a exclusividade. Apenas o comando deve ser do
Estado. E inclusive com contrato de gestão que garanta a
profissionalização da gestão.
AT - E como seria isso?
Serra - Não tem cabimento ter diretor indicado por deputado,
indicado por partidos em um porto dessa importância. Isso não tem
sentido nenhum.
AT - Quando o senhor espera uma resposta da União?
Serra - O presidente me disse que em um prazo de 15 dias a gente
voltaria a conversar.
AT - Alguns falam em regionalização do Porto, e outros,
estadualização. Há alguma diferença?
Serra - Pode chamar de regionalização ou de estadualização. (O
importante) é que apenas a autoridade portuária passe a ser do
Governo do Estado. A maneira e a participação a gente vai ter de
discutir. Mas passe a responsabilidade para São Paulo. E isso não
é por desejo de poder, não. Porque, de fato, administrar o porto
(de Santos) é bastante difícil, não é uma tarefa simples. O que
nos move não é ter mais poder, o que nos move é querer servir ao
desenvolvimento de São Paulo, do Brasil e da Baixada Santista.
Porque um bom porto significará também atividade econômica em
volta. Mas não dá para ser como hoje, que o porto (de Santos) tem
um estacionamento como se fosse o estacionamento de um estádio de
futebol. Não está regulado com a dinâmica econômica, com a
logística. Tem o retroporto misturado com a própria atividade
portuária. Tem o problema de dragagem! Francamente, a essa altura
do século 21... (Isso em) Um porto do tamanho como o de Santos não
tem cabimento!
AT - O grande empecilho dessa passagem de comando seria a questão
da dívida da Codesp?
Serra - Eu não acho que isso é empecilho, porque a dívida existe,
é impagável do jeito que é hoje. O Governo Federal ficar com a
dívida não significa que vai aumentar o déficit federal. Não vai
aumentar, porque a dívida está aí. Da mesma maneira que quando se
privatizou a Cosipa e outras empresas, o Governo Federal ficou com
a dívida, eu acho que no caso é razoável que o Tesouro Nacional
fique com a dívida. Hoje em dia, inclusive, se prometeu dinheiro
do Tesouro Federal para se fazer as (avenidas) perimetrais. Não
haveria necessidade disso se o Porto estivesse administrado pelo
Estado, sem dívidas. Com os próprios recursos gerados isso seria
possível de se fazer. E eu tenho certeza de que se faria melhor.
AT - O que mais poderia mudar?
Serra - Hoje tem um problema lá de energia elétrica porque a Usina
de Itatinga, que pertence ao próprio porto, é deficitária.
Francamente! A essa altura do campeonato sai mais caro comprar da
usina do que comprar de fora... Isso é um problema típico de
gestão e de administração. São questões que a gente resolveria com
relativa facilidade, embora nada seja trivial. É preciso muito
empenho e muito esforço.
AT - Em paralelo à proposta de regionalizar o porto, quando o
senhor visitou o prefeito de Santos, João Paulo Tavares Papa, no
começo da campanha eleitoral, e ele lhe mostrou o esboço do que
seria o Projeto Porto Valongo, que necessita do repasse dos
armazéns de 1 a 8 do cais.
Serra - Eu soube pelo prefeito agora que, de alguma maneira, o
projeto está empacado. Se eu soubesse (antes), teria levado também
ao presidente da República e prometo levá-lo em uma próxima vez.
Eu acho que essa área portuária, antiga, de armazéns, ela tem de
ser redinamizada. É um patrimônio histórico. Nós temos de combinar
aí turismo e atividade econômica. E eu estou disposto a ajudar a
Prefeitura de Santos a fazer isso.
AT - Mudando de assunto, governador. Na questão da Segurança
Pública, por que o Estado não consegue pressionar as operadoras de
telefonia celular para que bloqueiem o sinal dentro dos presídios?
Serra - Porque elas não estão obrigadas legalmente e a Anatel faz
o jogo das empresas de celular, que já ganham bastante dinheiro.
Não acho que seria nada escandaloso se pudessem fazer um bloqueio,
se fizessem alguma despesa em inovação tecnológica nessa direção.
E por isso nós apresentamos, junto com outros governadores do
Sudeste, uma proposta de obrigar, por lei, as operadoras a fazer
isso. Tornar responsabilidade delas.
AT - O senhor acredita que essa idéia vingue?
Serra - Eu acredito que sim. Vi boa receptividade a respeito disso
no Congresso Nacional.
AT - Falando um pouco agora de Economia, o que o senhor acha da
idéia de se criar um Imposto de Valor Agregado (IVA) reunindo
todos os tributos?
Serra - Hoje já tem o IVA no Brasil, o ICMS é um IVA, o IPI é um
IVA. A coisa é um pouco mais complexa do que essa. Há interesses
muito contraditórios dos diferentes estados. Então esse é um
problema. Eu tenho até posição, como economista, como alguém que
sempre esteve ligado ao assunto tributação. Mas nós vamos ter de
chegar a um entendimento mais amplo a respeito.
AT - E quanto à idéia de se mudar a forma de recolhimento do
Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS),
alterando a cobrança da origem para o destino do produto?
Serra - Para São Paulo, isso produziria perda. Porque São Paulo é
um estado exportador líquido para o País, ou seja, vende mais do
que compra. Portanto, se todo o ICMS fosse cobrado no destino,
arrecadaria menos. Em contrapartida, haveria menos guerra fiscal,
porque sem ter cobrança na origem, cobrança que na maior parte das
vezes não é feita, mas figura como tal, a guerra fiscal seria
desestimulada. São Paulo também perde bastante com a guerra
fiscal. Mas nós temos que conhecer propostas e avaliar custos e
benefícios e fazer uma avaliação. Não dá para discutir esse tema
pela Imprensa, apenas com perguntas e respostas. Nós temos que ter
uma proposta concreta por escrito.
AT - Como está o empenho do Governo do Estado na questão do
Rodoanel e do Ferroanel?
Serra - Eu estou voltado para viabilizar o Rodoanel, o trecho Sul.
O problema é o dinheiro. Ele custa quase R$ 4 bilhões. O Governo
Federal prometeu R$ 1,2 bilhão nesse PAC (Programa de Aceleração
do Crescimento). Esperamos que possa cumprir. E nós vamos fazer a
concessão do trecho Oeste, instalando pedágio para poder obter
recursos para o financiamento desse trecho. Para mim, é prioridade
número zero. É preliminar a todas as outras. E o Ferroanel depende
mais do Governo Federal e da concessionária, do que do Estado. Mas
nós estamos insistindo inclusive no trecho Sul do Ferroanel, que
liberaria mais trilhos para o transporte da cidade de São Paulo,
para a Grande São Paulo, para se fazer metrô de superfície e
também desembocaria em Santos.
AT - Há algum outro anúncio importante para a Baixada?
Serra - Nós vamos criar 20 centros regionais de especialidades, na
área de Saúde. Serão ambulatórios de especialidades
bem-administrados, através de entidades parceiras, organizações
sociais parceiras, gente séria... Nós vamos criar 20 no Estado de
São Paulo para desafogar uma área que é crítica, que é a da
consulta da especialidade. E um dos primeiros será na Baixada
Santista, aqui em Santos.
AT - Seria para quando essa implantação?
Serra - É uma coisa para investir já neste ano.
AT - O Estado já tem essa área?
Serra - Já tem em vista.
AT - A implantação seria para o primeiro semestre?
Serra - Jornalista é louco por pedir prazos e depois cobrar
(risos). Nós vamos começar a iniciativa este ano.
Fonte:
[entrevista]A Tribuna