Entra ano e sai ano e a questão
persiste. Acompanhe a matéria publicada em 2002 com sabor de
“dejavu”.
"ADIVINHE
QUEM VEM PARA O JANTAR
Se
for um amigo envolvido em escândalos, não se apavore. Aprenda a
lidar com a situação
Como
lidar com um amigo que se envolveu em escândalo financeiro ou
criminal? Você se afasta ou finge que não aconteceu nada? Retira
o nome dele da lista de convidados para o casamento da sua filha
ou envia o convite e reza para que ele não apareça? Questões
como essas não estão em nenhum manual de etiqueta. Por enquanto.
Ultimamente, com o aumento do número de milionários, executivos
e políticos encrencados com a Justiça, novos códigos surgem
para definir padrões de conduta em situações embaraçosas.
Entre os especialistas em comportamento social há um único
consenso: é um assunto que envolve muito mais ética e amizade do
que etiqueta.
Às
vezes, basta um telefonema. É a dica da consultora de etiqueta Célia
Ribeiro, para quem tem um amigo que virou protagonista de um escândalo.
“O ideal é nem tocar no assunto, apenas pergunte se está tudo
bem. Isso já soa como apoio”, diz ela. A consultora de etiqueta
empresarial Célia Leão é mais radical. “De maneira polida,
corte relações. Ainda acredito na força da frase: "Dize-me
com quem andas que eu te direi quem és’. E se for uma pessoa
muito próxima? “Continue telefonando e chamando-o para jantar
em sua casa”, afirma Marlene Galeazzi, colunista social de Brasília.
Agora, se você quiser convidar outras pessoas para dividir a mesa
com o seu amigo que está nas páginas policiais da imprensa
nacional, é bom consultá-los antes. “Seria extremamente
indelicado expor outras pessoas ao convívio com um condenado na
Justiça, sem consultá-las”, diz Célia Ribeiro.
Muitas
vezes, o próprio indivíduo envolvido em um escândalo prefere se
afastar do convívio social. No final de maio, o empresário Luís
Estevão de Oliveira, cujo mandato de senador foi cassado em meio
às denúncias de desvio de verbas do TRT de São Paulo, foi
convidado para o casamento da filha de um ministro do Tribunal
Superior. Não compareceu. “Não fui porque vários ministros do
Supremo, do STJ e do TSE, pessoas que conheço, estariam na festa.
Aí um fotógrafo pega um deles abraçado e sorrindo ao meu lado e
pronto. Involuntariamente vou causar constrangimento”, diz Estevão.
Ele admite que quando saiu da prisão, uma de suas maiores
preocupações era saber se iria ser aceito na sociedade
brasiliense.
O seu nome ainda aparece nos convites das festas da cidade,
mas não com a mesma freqüência. Contudo, sua mulher, Cleucy
e sua mãe, a socialite Marita Martins, são as primeiras nas
listas
dos eventos femininos de Brasília. Ou seja, aos poucos tudo vai
voltando ao normal.
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Saia-justa:
especialistas em etiqueta discordam sobre a conduta em
ocasiões embaraçosas
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“A
verdade é que, num primeiro momento, a pessoa é banida do grupo.
Esse é o protocolo do ser humano. Quem está envolvido é tratado
como leproso. O regresso é muito difícil. Ele recebe telefonemas
e não retorna, pois tem vergonha”, diz um profissional
especializado em recuperar a imagem de quem se enrascou nos negócios
ou na vida pública. A volta pode ser difícil, mas acontece.
Quando
Ricardo Mansur afundou o Mappin e gerou um prejuízo de R$ 1 bilhão,
há três anos, viu seu mundo cair. Até os cavalos dos amigos,
que ficavam nos estábulos da mansão de Mansur no luxuoso condomínio
Helvetia, em Indaiatuba, foram retirados de lá às pressas. Pelos
amigos, claro. “O isolamento social é o pior castigo e você
tem o direito de escolher se quer participar dele ou apoiar a
pessoa que está sendo expulsa do grupo”, diz Célia Leão. O
tempo não resolveu suas pendengas judiciais, mas os amigos
voltaram. No início do ano, uma das etapas do campeonato de pólo
foi disputada no campo particular de Mansur.
O
ex-senador Antônio Carlos Magalhães, exilado há dois anos na
Bahia, desde que renunciou ao mandato antes de ser cassado sob
acusação de falta de decoro, criou sua própria regra: “Jamais
trato mal um amigo que perdeu o poder, mesmo porque ninguém é tão
forte que não possa cair, nem tão fraco que não possa subir.”
Nos últimos 50 anos de vida pública, ele assistiu a várias
ascensões e quedas (inclusive as suas). A grande dúvida é se a
derrocada de um amigo pode levar junto outras pessoas apenas por
causa de suas atitudes. Afinal, é possível ser amigo, sem ser
acusado de cumplicidade? “Sim. Deixe claro que você está solidário
com o momento traumático que ele vive e não com o que o levou a
tal condição”, diz Célia Ribeiro."
Fonte:Isto
É Dinheiro/Andréa Assef e
Hugo Studart