Já se
passaram 17 anos desde que o governo Collor decidiu abrir a
economia brasileira à concorrência estrangeira. Implementada num
período de quatro anos, a primeira rodada de abertura, feita de
forma unilateral, mudou a face do setor produtivo nacional,
obrigando as empresas a se tornarem mais produtivas e
competitivas. Apesar disso, o Brasil permanece sendo um dos países
mais fechados do mundo, o que se constitui um obstáculo à
aceleração de seu crescimento. Em seu mais novo livro - "Brasil:
Raízes do Atraso" -, lançado no último fim de semana pela Editora
Campus, o economista Fábio Giambiagi, do Ipea, aborda o
protecionismo que ainda caracteriza as relações do país com o
exterior, classificando-o como uma das "vacas sagradas" que
impedem a economia brasileira de crescer a taxas mais elevadas.
Giambiagi advoga, com muita propriedade, a tese de que o Brasil
não pode esperar eternamente pelo avanço das negociações
comerciais para promover uma nova rodada de abertura. Se num dado
momento da História, o protecionismo foi importante para forjar a
criação de um parque industrial, no fim do anos 80 o modelo já
estava exaurido. Ajudou a proliferar no país empresas com baixa
escala de produção, escassa competitividade e, por causa disso,
com um forte viés antiexportador. Desestimulou o desenvolvimento
de uma cultura da eficiência, o que acabou por tornar os produtos
nacionais intensivos em tecnologia absolutamente defasados quando
comparados a seus similares lá fora. O desenvolvimento amparado no
modelo de substituição de importações esgotou-se no fim dos anos
80, período em que o Brasil se tornou um dos países mais fechados
do mundo - além de chegar à aquele momento com um Estado falido,
inadimplente na dívida externa e sem capacidade fiscal para
sustentar o modelo vigente, e uma inflação fora de controle.
País ganha com livre-comércio, diz Giambiagi - "Já não havia mais
produtos a substituir, o que eliminava a possibilidade de elevar a
produção com a substituição de importados", conta Giambiagi. A
abertura, que começou a ser discutida ainda no governo Sarney,
tornou-se um imperativo, reconhecido de imediato, e de forma
corajosa, pelo governo Collor. Os fluxos de comércio são
caracterizados hoje em dia, ensina o economista do Ipea, pela
especialização da produção em países com vantagens comparativas em
determinados setores e pelas economias de escala e diferenciação
de produtos. O Brasil já se beneficia dos dois fluxos - no
primeiro caso, por ser rico em recursos naturais e, no segundo,
por ter desenvolvido know-how na produção, por exemplo, de aviões
médios e automóveis populares. Ficou para trás a idéia de que o
país pode ser auto-suficiente, produzindo tudo o que consome, mas,
na comparação internacional, o Brasil ainda é muito fechado. São
quatro as razões que um país leva em conta para abrir a economia,
baseado no livre-comércio. A primeira, explica Giambiagi, é o
citado princípio econômico: "se a idéia é cada país produzir o que
cada um pode fazer melhor, a estratégia só funciona se cada país
em particular estiver disposto a aceitar comprar produtos dos
demais países, e não produzir de tudo por si mesmo".
A segunda razão é a incorporação de tecnologia pela importação de
bens de capital (máquinas e equipamentos), que servem de difusores
dos avanços técnicos propiciados pelas novas descobertas e
inovações. As grandes empresas brasileiras - Embraer, Petrobras,
Vale etc. - são hoje exemplos de que como a abertura as tornou
competitivas no mercado internacional. Uma via de mão dupla -
essas companhias são grandes exportadores e também os maiores
importadores do país. A terceira razão para apostar no
livre-comércio é o estímulo que ele traz à concorrência e, em
conseqüência, ao barateamento dos preços internos. Um exemplo
recente é ilustrativo: a importação de produtos chineses a preços
baixos, no fim dos anos 90, ajudou os Estados Unidos a prolongar
seu espetacular ciclo de crescimento econômico daquele período. A
quarta razão apontada por Giambiagi é o aumento da produtividade
total dos fatores, que mede a contribuição ao crescimento oriunda
da expansão da produtividade conjunta do capital e do trabalho.
Estudos empíricos, diz o economista, comprovam que a elevação da
produtividade total está diretamente associada ao grau de abertura
da economia.
Apesar da evidência de que o Brasil não pode mais perder tempo no
comércio internacional, o assunto é um tabu em setores da
sociedade e, infelizmente, no governo Lula, que protela
negociações em função de questões políticas internas e em nome de
um acordo multilateral (na OMC) que, hoje, é uma miragem no
deserto. "O receio de que o mundo seja uma ameaça para nós é um
vício enraizado na alma nacional", observa Giambiagi, lembrando-se
que, certa vez, ouviu de um amigo a definição de que o Brasil é um
"gigante medroso". "Não poderia haver expressão mais feliz para
retratar a atitude do país em face do desafio representado pelo
enfrentamento da concorrência com o resto do mundo."
Fonte:
[editorial] Valor Econômico - SP